O que venho tratar neste texto de
hoje não se baseia em pesquisas científicas. O que pretendo analisar aqui é
fruto da mais pura observação ao longo do tempo, portanto, não passa de uma
opinião e nada além disso.
É muito comum verificarmos
atualmente a dificuldade que as pessoas têm para escrever. E, neste ponto, não
estou nem me referindo às regras gramaticais (que já estão praticamente em
desuso com o advento do “internetês”). Refiro-me ao simples ato de transpor
para o papel aquilo que ainda está na mente, independente do teor.
Durante muito tempo acreditei que
a dificuldade da escrita era uma consequência lógica da falta de leitura. Essa
foi uma certeza que me acompanhou por anos, até que eu conheci uma pessoa que
devorava livros (inclusive me apresentando autores que eu não conhecia), mas
que, mesmo assim, possuía uma dificuldade enorme para escrever.
Convivi com essa pessoa por
muitos anos, o que me deu a oportunidade de entender melhor o processo da
escrita e os fatores que realmente podem fazer dela uma tarefa tão árdua.
O primeiro ponto a ser observado
é a formação da pessoa. Não exatamente sua formação “final”, mas a inicial.
Quanto melhor a base de formação que o indivíduo tenha, maior sua facilidade
para a escrita. E, aqui sim estou me referindo às questões de ortografia e
gramática. Sem essa base, a dificuldade de aprendizado (até intuitivo) dessas
regrinhas (chatas) da nossa língua fica ainda maior.
A segunda questão seria a
leitura, mas como disse antes, esse é um fator que parece não ser decisivo no
desenvolvimento da capacidade de escrita do indivíduo, apesar de ser de suma
importância. O que percebi é que o aprendizado através da leitura depende muito
mais das características pessoais do que da quantidade ou qualidade dos livros lidos.
Aquelas pessoas que possuem facilidade para aprender através da leitura, terão
suas habilidades desenvolvidas utilizando esse recurso. Aquelas que precisam de
outros estímulos para aprender poderão ler dezenas de livros por mês, mas terão
um desenvolvimento ínfimo se comparado ao grupo anterior.
Sendo assim, chegamos ao terceiro
ponto, aquele que eu considero como fator essencial para definir o que
realmente facilita ou dificulta o desenvolvimento da habilidade escrita: a forma
de pensar.
A escrita nada mais é do que um
pensamento codificado. Transcrevemos para o papel ou para o computador aquilo
que antes perpassou nossas mentes. No entanto, para fazê-lo precisamos
organizar o pensamento e é nesse ponto que vemos a maior dificuldade.
Antes de escrever o indivíduo
precisa aprender a organizar aquilo que ele pensa. A dificuldade do pensar se
reflete na dificuldade do expressar o que se pensa. A maioria das pessoas não
consegue sequer explicar com clareza o que deseja. E essa falta de organização
mental se reflete na forma como a pessoa escreve e, muitas vezes, até na
estética da escrita.
Falta ou excesso de pontuação,
escrita prolixa ou objetiva, textos sem estrutura, com frases longas demais ou
curtas demais, são detalhes que podem nos informar sobre características
pessoais daquele escreve. Às vezes, temos uma visão muito mais realista do
perfil daquele indivíduo analisando sua forma de escrever do que analisando o
conteúdo da sua escrita.
Acredito que praticar a escrita
seja uma forma excelente de autoconhecimento e desenvolvimento do raciocínio. E
vou além... acredito que seja também uma maneira de percebermos o quanto nos
preocupamos com o outro. Aquele que procura adequar sua escrita de forma a
facilitar a compreensão do leitor, demonstra respeito e consideração pelo
receptor da mensagem. No entanto, aquele que acredita que o outro tem a
“obrigação” de o entender e de o atender (caso seja uma solicitação),
provavelmente não “perderá” seu tempo preocupando-se com clareza, estética e,
até mesmo, educação.
Sendo assim, escrita, a meu ver, é o reflexo de quem somos, de como pensamos e de como nos relacionamos com o outro. Adquirir hábitos de leitura é sempre saudável e enriquecedor, mas adquirir o hábito do autoconhecimento e do autodesenvolvimento é fundamental.

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