Então, vamos aproveitar que a
natureza nos deu a deixa e continuar falando sobre Heráclito, pois sua teoria
não para simplesmente na análise de que tudo flui, ou que tudo muda. Segundo o
filósofo, a mudança (ou o devir) é resultado da alternância entre contrários.
As contradições, portanto, seriam naturais e lutar contra elas seria inútil.
De uma forma mais didática,
Eugenio Mussak, em seu livro “Metacompetência”,
dá uma explicação bem elucidativa sobre o assunto.
“Uma estrada tem uma subida e uma
descida. E continua sendo uma estrada só, e não duas. Se alguém diz que o copo
de água está meio vazio, enquanto outro afirma que o copo está meio cheio,
estão falando sobre o mesmo copo, e não sobre dois. É o mesmo, mas há
percepções opostas a seu respeito. Essas percepções não são contraditórias, mas
complementares, pois o copo está, na verdade, meio cheio e meio vazio.”
Essa parte da teoria de Heráclito
é chamada de “Doutrina da unidade dos contrários”, pois é da contradição que
vem a unidade. Dessa forma, podemos afirmar que tentar eliminar a contradição,
é tentar eliminar a própria realidade. “O que se percebe disso é que a
realidade, portanto, é totalmente instável, pois nela habitam os opostos”
(MUSSAK).
Par alguns, talvez isso possa
parecer um pensamento profundo demais sem aplicações na vida cotidiana. Mas
engana-se quem assim pensa. Se começarmos a entender e aceitar a realidade como
algo instável e mutável, fruto do eterno duelo (e complementaridade) das
contradições, percebemos que para nos tornarmos seres capazes de nos adaptarmos
ao mundo é necessário aprender a conviver com os opostos. É obrigatório o
exercício da percepção para que possamos apurá-la e assim melhor compreendermos
o mundo e as pessoas ao nosso redor.
“Compreender o valor da opinião
contrária é aprender com ela. Aceitar a ambigüidade do mundo e decidir pela
alternativa que parece a mais certa para aquele momento. Porque em outro
momento a opinião pode mudar. A não aceitação dessa realidade provoca alienação
e paralisação” (MUSSAK).
Quantas pessoas nós não
conhecemos que afirmam que “sempre foram assim, e sempre serão assim e nunca
irão mudar”?
Quantas vezes NÓS mesmos não nos
pegamos arraigados às nossas próprias teorias imutáveis, fruto dos nossos
estudos ou das nossas experiências e afirmamos com toda convicção as nossas
idéias de como as coisas são ou deveriam ser.... até que vem a própria vida e
nos passa uma rasteira colocando em nosso caminho pessoas com pensamentos e
atitudes completamente diferentes das nossas e nos mostrando que as
possibilidades são inúmeras, apesar do nosso “pé firme”, da nossa insistência
em manter nossa posição?
Não são as pessoas mais
inteligentes que ganham o mundo.... são as com melhor capacidade adaptativa!
São as mais flexíveis, as mais criativas, as que vêem o problema e saem em
busca de soluções.
ASM

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