quarta-feira, 6 de agosto de 2014

AS CONTRADIÇÕES - UM POUCO MAIS SOBRE HERÁCLITO

Então, vamos aproveitar que a natureza nos deu a deixa e continuar falando sobre Heráclito, pois sua teoria não para simplesmente na análise de que tudo flui, ou que tudo muda. Segundo o filósofo, a mudança (ou o devir) é resultado da alternância entre contrários. As contradições, portanto, seriam naturais e lutar contra elas seria inútil.

De uma forma mais didática, Eugenio Mussak, em seu livro “Metacompetência”, dá uma explicação bem elucidativa sobre o assunto.

“Uma estrada tem uma subida e uma descida. E continua sendo uma estrada só, e não duas. Se alguém diz que o copo de água está meio vazio, enquanto outro afirma que o copo está meio cheio, estão falando sobre o mesmo copo, e não sobre dois. É o mesmo, mas há percepções opostas a seu respeito. Essas percepções não são contraditórias, mas complementares, pois o copo está, na verdade, meio cheio e meio vazio.”

Essa parte da teoria de Heráclito é chamada de “Doutrina da unidade dos contrários”, pois é da contradição que vem a unidade. Dessa forma, podemos afirmar que tentar eliminar a contradição, é tentar eliminar a própria realidade. “O que se percebe disso é que a realidade, portanto, é totalmente instável, pois nela habitam os opostos” (MUSSAK).

Par alguns, talvez isso possa parecer um pensamento profundo demais sem aplicações na vida cotidiana. Mas engana-se quem assim pensa. Se começarmos a entender e aceitar a realidade como algo instável e mutável, fruto do eterno duelo (e complementaridade) das contradições, percebemos que para nos tornarmos seres capazes de nos adaptarmos ao mundo é necessário aprender a conviver com os opostos. É obrigatório o exercício da percepção para que possamos apurá-la e assim melhor compreendermos o mundo e as pessoas ao nosso redor.

“Compreender o valor da opinião contrária é aprender com ela. Aceitar a ambigüidade do mundo e decidir pela alternativa que parece a mais certa para aquele momento. Porque em outro momento a opinião pode mudar. A não aceitação dessa realidade provoca alienação e paralisação” (MUSSAK).
Quantas pessoas nós não conhecemos que afirmam que “sempre foram assim, e sempre serão assim e nunca irão mudar”?

Quantas vezes NÓS mesmos não nos pegamos arraigados às nossas próprias teorias imutáveis, fruto dos nossos estudos ou das nossas experiências e afirmamos com toda convicção as nossas idéias de como as coisas são ou deveriam ser.... até que vem a própria vida e nos passa uma rasteira colocando em nosso caminho pessoas com pensamentos e atitudes completamente diferentes das nossas e nos mostrando que as possibilidades são inúmeras, apesar do nosso “pé firme”, da nossa insistência em manter nossa posição?

Não são as pessoas mais inteligentes que ganham o mundo.... são as com melhor capacidade adaptativa! São as mais flexíveis, as mais criativas, as que vêem o problema e saem em busca de soluções.

Aquele que quiser acompanhar o ritmo do mundo deverá, no mínimo, mudar junto com ele.  


ASM

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