domingo, 4 de janeiro de 2015

SER AUTÔNOMO: UM DESAFIO MODERNO!

Uma certa vez, fui interpelada por uma amiga a respeito de algumas atitudes que eu tomava. Ela me questionava se eu não me importava que as minhas atitudes pudessem magoar pessoas. Confesso que naquele momento fui pega de surpresa justamente porque eu acreditava que tomava aquelas atitudes para não magoar as pessoas.

Esse tipo de dilema é muito comum acontecer quando estamos diante de questões do tipo: “o que eu quero fazer x o que os outros esperam que eu faça”. Tentar definir o limite entre o certo e o errado se torna quase impossível, principalmente quando entendemos que, na maioria das vezes, fazer o que os outros esperam de nós só parece ser errado porque não o queremos fazer. Assim como fazer o que queremos fazer só é inaceitável por não ser o que esperam que façamos. Em resumo, existe um conflito de expectativas que nada tem a ver com ética, moral, certo ou errado.


Para tentar equilibrar questões como essa, e equalizar a liberdade de agir com o respeito às normas estabelecidas, surgiram expressões do tipo “liberdade com responsabilidade” que traduzem exatamente o que seria a definição para autonomia.

“Uma pessoa autônoma não é a que faz o que quer sem dar satisfação a ninguém. É alguém que tem clareza das situações e assume a responsabilidade pelo que faz”¹.

A autonomia é o oposto da heteronomia, situação na qual a pessoa é uma mera seguidora de ordens. Na heteronomia, o individuo não pensa, ele somente reage de acordo com os comandos, regras ou normas às quais tenha sido orientado a seguir.

Segundo o psicólogo americano, Lawrence Kohlberg, existem seis estágios, ou fases de amadurecimento, que vão desde a heteronomia total até a autonomia plena. Esses estágios seriam:

  1.  Medo da punição;
  2.  Expectativa de recompensa;
  3.  Expectativa de reconhecimento;
  4.  Cumprimento do dever;
  5.  Contrato social;
  6.  Princípios universais da moralidade.

Em um ambiente de trabalho coercitivo, muitas vezes nos vemos assumindo posturas heteronômicas, geralmente ligadas a quaisquer um dos 4 primeiros estágios. Tememos infringir certas normas por medo de sermos punidos, obedecemos fielmente aos regramentos na expectativa de alguma recompensa ou reconhecimento, e cumprimos as tarefas que nos são dadas sem questionar pela simples sensação de cumprimento do dever.

Nesses casos, não há avaliação mais profunda do que está sendo feito, não há questionamento do que poderia ser feito diferente, ou melhor, não há inovação ou alguma tentativa de corrigir erros pré-existentes.

A partir do quinto estágio é que podemos verificar um certo grau de autonomia quando o individuo começa a perceber que, se por um lado ele tem as normas, por outro ele tem a lógica ou a necessidade de adequação dessas normas para que os resultados possam ser atingidos com maior eficiência. Sendo que no sexto estágio, o individuo se vê impelido a pensar em novas soluções a partir de questões morais que ele considera serem superiores ou mais importantes que o simples normativo ou regramento imposto.

Chegar a um estágio de autonomia exige do indivíduo o desenvolvimento da maturidade, pois ele passa a ter que assumir as responsabilidades pelos seus atos, assim como se vê também exigido de uma maior gama de conhecimento para que suas decisões sejam bem embasadas, lúcidas, coerentes e racionais.

Quando fui interpelada por aquela minha amiga (heterônoma) sobre a minha conduta autônoma, eu ainda não conhecia a definição desses termos. E quando não temos conhecimento, o questionamento do por que de estarmos saindo da trilha pré-programada para nós, assim como a argumentação sobre o fazer o certo dentro dos padrões esperados, torna-se algo realmente perturbador. Como eu já havia dito no começo, é quase impossível definir a linha que separa o certo do errado e, portanto, não podemos dizer que seja errado seguir regras pré-estabelecidas ou manter as aparências daquilo que esperam que sejamos.

A ideia de que tudo seja relativo confunde e torna tudo um pouco vago e sem sentido. Mas quando percebemos que essa relatividade não está no fato em si, mas na forma em que o encaramos, no grau de liberdade ou de autonomia que possuímos (ou que nos permitimos) para tomarmos nossas decisões, entendemos finalmente que o que diferencia o bom do ruim, o certo do errado, é o nosso próprio nível de amadurecimento diante da vida.

Ser autônomo não significa ser inconsequente, assim como ser heteronômico não implica em ser responsável. A autonomia exige raciocínio, equilíbrio e assunção de responsabilidades. Enquanto a heteronomia, de um modo geral, não exige nada além daquilo que foi estabelecido, eximindo o individuo de responsabilidade, haja vista que ele só estava seguindo aquilo que era esperado dele.

Se em algum momento, seja na vida pessoal ou na sua vida profissional, alguém questionar suas decisões, analise primeiramente o que te levou a decidir dessa e não daquela maneira. Compreenda a qual nível de liberdade interior você se encontra vinculado, para que possa entender realmente aquilo que deseja e por que o deseja.

Se você ainda está em um nível interior heteronômico, sentir-se-á infinitamente desconfortável se tentar tomar alguma atitude autônoma. Da mesma forma, se seu entendimento íntimo for de alguém com liberdade para assumir suas responsabilidades tomando decisões autônomas, é bem provável que se sentirá infeliz e castrado diante da imposição de ter que decidir heteronomicamente.

¹MUSSAK, Eugenio. “Com gente é diferente: inspirações para quem precisa fazer gestão de pessoas”. São Paulo: Integrare Editora, 2014. p. 78

²MUSSAK, Eugenio. “Com gente é diferente: inspirações para quem precisa fazer gestão de pessoas”. São Paulo: Integrare Editora, 2014. p. 43

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