Uma
certa vez, fui interpelada por uma amiga a respeito de algumas atitudes que eu
tomava. Ela me questionava se eu não me importava que as minhas atitudes
pudessem magoar pessoas. Confesso que naquele momento fui pega de surpresa
justamente porque eu acreditava que tomava aquelas atitudes para não magoar as pessoas.
Esse
tipo de dilema é muito comum acontecer quando estamos diante de questões do
tipo: “o que eu quero fazer x o que os outros esperam que eu faça”. Tentar
definir o limite entre o certo e o errado se torna quase impossível,
principalmente quando entendemos que, na maioria das vezes, fazer o que os
outros esperam de nós só parece ser errado porque não o queremos fazer. Assim
como fazer o que queremos fazer só é inaceitável por não ser o que esperam que
façamos. Em resumo, existe um conflito de expectativas que nada tem a ver com
ética, moral, certo ou errado.
Para
tentar equilibrar questões como essa, e equalizar a liberdade de agir com o
respeito às normas estabelecidas, surgiram expressões do tipo “liberdade com
responsabilidade” que traduzem exatamente o que seria a definição para autonomia.
“Uma pessoa autônoma não é a que
faz o que quer sem dar satisfação a ninguém. É alguém que tem clareza das
situações e assume a responsabilidade pelo que faz”¹.
A
autonomia é o oposto da heteronomia, situação na qual a pessoa é uma mera
seguidora de ordens. Na heteronomia, o individuo não pensa, ele somente reage
de acordo com os comandos, regras ou normas às quais tenha sido orientado a
seguir.
Segundo
o psicólogo americano, Lawrence Kohlberg, existem seis estágios, ou fases de
amadurecimento, que vão desde a heteronomia total até a autonomia plena. Esses
estágios seriam:
- Medo da punição;
- Expectativa de recompensa;
- Expectativa de reconhecimento;
- Cumprimento do dever;
- Contrato social;
- Princípios universais da moralidade.
Em
um ambiente de trabalho coercitivo, muitas vezes nos vemos assumindo posturas
heteronômicas, geralmente ligadas a quaisquer um dos 4 primeiros estágios.
Tememos infringir certas normas por medo de sermos punidos, obedecemos
fielmente aos regramentos na expectativa de alguma recompensa ou
reconhecimento, e cumprimos as tarefas que nos são dadas sem questionar pela
simples sensação de cumprimento do dever.
Nesses
casos, não há avaliação mais profunda do que está sendo feito, não há
questionamento do que poderia ser feito diferente, ou melhor, não há inovação
ou alguma tentativa de corrigir erros pré-existentes.
A
partir do quinto estágio é que podemos verificar um certo grau de autonomia
quando o individuo começa a perceber que, se por um lado ele tem as normas, por
outro ele tem a lógica ou a necessidade de adequação dessas normas para que os
resultados possam ser atingidos com maior eficiência. Sendo que no sexto
estágio, o individuo se vê impelido a pensar em novas soluções a partir de
questões morais que ele considera serem superiores ou mais importantes que o
simples normativo ou regramento imposto.
Chegar
a um estágio de autonomia exige do indivíduo o desenvolvimento da maturidade,
pois ele passa a ter que assumir as responsabilidades pelos seus atos, assim
como se vê também exigido de uma maior gama de conhecimento para que suas
decisões sejam bem embasadas, lúcidas, coerentes e racionais.
Quando
fui interpelada por aquela minha amiga (heterônoma) sobre a minha conduta
autônoma, eu ainda não conhecia a definição desses termos. E quando não temos
conhecimento, o questionamento do por que de estarmos saindo da trilha
pré-programada para nós, assim como a argumentação sobre o fazer o certo dentro
dos padrões esperados, torna-se algo realmente perturbador. Como eu já havia
dito no começo, é quase impossível definir a linha que separa o certo do errado
e, portanto, não podemos dizer que seja errado seguir regras pré-estabelecidas
ou manter as aparências daquilo que esperam que sejamos.
A
ideia de que tudo seja relativo confunde e torna tudo um pouco vago e sem
sentido. Mas quando percebemos que essa relatividade não está no fato em si,
mas na forma em que o encaramos, no grau de liberdade ou de autonomia que possuímos
(ou que nos permitimos) para tomarmos nossas decisões, entendemos finalmente
que o que diferencia o bom do ruim, o certo do errado, é o nosso próprio nível
de amadurecimento diante da vida.
Ser
autônomo não significa ser inconsequente, assim como ser heteronômico não
implica em ser responsável. A autonomia exige raciocínio, equilíbrio e assunção
de responsabilidades. Enquanto a heteronomia, de um modo geral, não exige nada
além daquilo que foi estabelecido, eximindo o individuo de responsabilidade,
haja vista que ele só estava seguindo aquilo que era esperado dele.
Se
em algum momento, seja na vida pessoal ou na sua vida profissional, alguém
questionar suas decisões, analise primeiramente o que te levou a decidir dessa
e não daquela maneira. Compreenda a qual nível de liberdade interior você se
encontra vinculado, para que possa entender realmente aquilo que deseja e por
que o deseja.
Se
você ainda está em um nível interior heteronômico, sentir-se-á infinitamente
desconfortável se tentar tomar alguma atitude autônoma. Da mesma forma, se seu
entendimento íntimo for de alguém com liberdade para assumir suas
responsabilidades tomando decisões autônomas, é bem provável que se sentirá
infeliz e castrado diante da imposição de ter que decidir heteronomicamente.
¹MUSSAK,
Eugenio. “Com gente é diferente: inspirações para quem precisa fazer gestão de
pessoas”. São Paulo: Integrare Editora, 2014. p. 78
²MUSSAK,
Eugenio. “Com gente é diferente: inspirações para quem precisa fazer gestão de
pessoas”. São Paulo: Integrare Editora, 2014. p. 43

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